sábado, 19 de março de 2011

Os pecados capitais e a saúde

Gula, preguiça, avareza, luxúria, ira, vaidade e inveja causam doenças? 

Saiba o que dizem os especialistas

Gula e obesidade

Cada vez que a ciência traz novas informações sobre a obesidade, a gula se afasta da categoria “pecado” e dá um passo em direção ao rótulo “doença”.

A comilança eventual – aquela que aparece em um sábado de feijoada ou domingo de macarrão – está perdoada das duas categorias, mas exige atenção quando, em vez de exceção, torna-se hábito diário.

A relação entre gula e obesidade se dá de duas formas, explica a endocrinologista Rosana Radominsk, presidente da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade (Abeso). “A primeira delas é que o comer excessivo tem repercussões cerebrais capazes de afetar a sensação de saciedade. E nós sabemos que esta parte do cérebro comprometida é muito próxima das alteradas pela drogas. São mecanismos de ação (drogas e guloseimas) muito parecidos.”

A especialista acrescenta que a segunda relação entre gula e a obesidade é o comer compulsivo. Uma grande quantidade de comida em um curto espaço de tempo, característica do chamado transtorno alimentar.

“Ninguém é guloso porque quer, então não há como chamar a gula de pecado. Sabemos que os obesos (normalmente taxados de gulosos) demoram mais para ficar saciados, têm o paladar diferente e sentem os cheiros de formas diferenciadas”, diz Rosana.

“Todo este processo é resultado de uma influência genética e também de fatores externos. Hoje vivemos em uma superexposição da comida, com muitos produtos industrializados e calóricos. Tudo isto influencia.”

Avareza e prisão de ventre

Toda vez que a química e pesquisadora Conceição Trucom atende uma pessoa com queixa de prisão de ventre severa, ela sabe que a solução para o problema vai além de uma alimentação rica em fibras, mesclada aos exercícios físicos. Ela faz um convite a seus clientes para observarem a forma como se relacionam com o mundo. Conceição entende que o intestino é um órgão emocional.


Para ela, entre as características pessoais mais relacionadas à constipação intestinal está a avareza. Não aquela amplamente conhecida, representada pelo “pão duro” e aquelas pessoas egocêntricas que têm a certeza de que são o centro do universo. “A avareza mais associada à prisão de ventre é a típica de pessoas muito generosas com todos que as cercam”, diz.

“Elas costumam colocar a vontade dos outros sempre em primeiro lugar, esquecem de seus desejos e têm dificuldade para reivindicar o seu espaço. São avarentas consigo mesmas e não no sentido literal”, explica.

A avaliação de Conceição, acrescenta a especialista, tem fundamentos fisiológicos. A prisão de ventre é caracterizada pelo ressecamento (interpretado como um ressecar das próprias vontades) e também pela falta de fluidez do trato intestinal (manifestado pela falta de jogo de cintura para pedir espaço próprio).

“Alimentação saudável e atividade físicas são cúmplices para reverter a manifestação física. Mas o autoconhecimento e a mudança de postura são as verdadeiras chaves para diminuir o problema.”

Vaidade e dismorfofobia

A guerra constante com o espelho pode não ser só uma questão de vaidade. Este pecado capital associado à imagem, por sinal, não é a origem de problemas de saúde graves que culminam em uma repetição perigosa de cirurgias plásticas e outros procedimentos estéticos.

Seja o pop star que faz do bisturi uma companhia constante ou a dona de casa que enxerga nas agulhas que aplicam botox uma espécie de vara de condão para exterminar a insatisfação irremediável com o rosto, todos eles podem ser portadores de um distúrbio psiquiátrico sério, chamado transtorno dismórfico corporal.

“Essa preocupação exagerada com a imagem, que causa estresse e interfere na vida cotidiana, ocorre porque a pessoa tem uma distorção de julgamento e pensa ter alguma parte do corpo defeituosa (pode ser o nariz, a altura, a pele, etc)”, afirma a dermatologista Luciana Conrado, uma das pioneiras em pesquisas sobre o assunto.

“Assim como as pessoas que sofrem de hipocondria acreditam que estão com alguma doença que na realidade não existe, as pessoas que tem o Transtorno Dismórfico Corporal, acreditam ser defeituosas partes do corpo que são consideradas normais para as outras pessoas.”

Estas pessoas que convivem com o aprisionamento de acreditar que um nariz perfeito é a coisa mais importante da vida, por exemplo, podem acabar em vários consultórios de dermatologistas e cirurgiões plásticos. Por isso, Luciana Conrado defende que os profissionais precisam estar capacitados para acolher os pacientes. “Não atendê-los não é suficiente, porque estes pacientes vão continuar buscando uma solução cosmética para um problema que é psíquico”, alerta.

Nem toda a insatisfação com o corpo é um sintoma de transtorno dismórfico corporal. A linha que separa o natural do exagero é tênue, diz Luciana. A orientação é colocar na balança os prejuízos que o descontentamento acarreta.

“Deixar de ir a compromissos sociais, vida ao ar livre, ter vergonha excessiva ou passar horas trocando de roupa a ponto de perder horário de trabalho já podem ser indícios.” Para o “pecado” da vaidade talvez não haja tratamento. Para o transtorno de imagem, sim.

Raiva (ira) e gastrite

Um pouquinho de raiva não faz mal a ninguém, diz a professora universitária de psicologia e coordenadora do Instituto Jungiano da Bahia, Maria Teresa Nappi Moreno. “Mas esta emoção desmedida e mal assimilada, além de bloquear o ser humano, pode atingir em cheio o estômago”, completa ela que pesquisou 109 adultos com gastrite.

“Todos eles vivenciavam a raiva de forma reprimida e mostravam um alto grau de ansiedade”, concluiu a especialista.

O processo fisiológico para a ira chegar ao estômago não é difícil de entender. A emoção desequilibra o sistema nervoso autônomo, altera os neurotransmissores e eles deixam a mucosa que cobre o estômago mais ácida. Além da queimação, a acidez pode provocar pequenos buraquinhos na parede estomacal, conhecida como gastrite. A evolução pode culminar em uma úlcera.

“As pessoas que eu pesquisei associavam a raiva que sentiam ao pecado, uma falha de caráter. Mas justamente pensar que quem sente raiva é um pecador é o que bloqueia o indivíduo e faz com ele não enxergue o lado positivo desta sentimento”, avalia Maria Teresa. “Um pouco de raiva, sem reforçar que a responsabilidade do outro, estimula a superação. O excesso do sentimento volta para si e pode ter a manifestação orgânica da gastrite.”

Luxúria e DST

O sexo não causa doenças. Só se for feito sem proteção. Dito isso, é difícil relacionar a luxúria (que na visão religiosa é definida por deixar-se cair em tentação em busca dos prazeres da carne ou das vontades materiais) às doenças sexualmente transmissíveis. Mas já existem indícios de que as traições - quase sempre associadas ao pecado capital – são mesmo a porta de entrada da infecção do vírus HIV, caso praticadas sem camisinha.

Uma pesquisa feita pelo Programa Nacional de DST, Aids e Hepatites Virais, ligado ao Ministério da Saúde, entrevistou 8 mil pessoas do País para definir os padrões sexuais do brasileiro. O levantamento identificou que 21% dos homens pesquisados admitiram ter relações extraconjugais no ano anterior ao estudo. Deste total, 63% não usaram camisinha em todas as deslizadas. Na faixa-etária feminina maior de 50 anos infectada por aids, 70% delas contraíram o vírus HIV do marido ou companheiro fixo, mostrou análise investigativa feita pelo Instituto de Infectologia Emílio Ribas.

Uma outra associação entre luxúria e doença está no transtorno da dependência de sexo, já assumido pelo milionário jogador de golfe Tiger Woods. Nestes casos, o distúrbio exige acompanhamento e tratamento médico e o vício, em nada, tem relação ao prazer.
Preguiça e sedentarismo

O sedentarismo invadiu a casa da maioria das pessoas e hoje afeta 80% dos brasileiros, segundo o último levantamento feito pelo Ministério da Saúde.

A falta de tempo é apontada como uma das principais responsáveis para a pouca ou nenhuma atividade física. A batalha com o relógio costuma ser mais difícil quando a preguiça entra na jogada. Mas antes de condenar este pecado capital, pense no primeiro pensamento que aparece ao tocar o despertador pela manhã. Que atire a primeira pedra quem não ajeita o travesseiro com o acalento da frase “só mais cinco minutinhos”.

A ausência eventual em um dia de academia ou caminhada ao ar livre pode ser perdoada, mas a sensação ganha contornos de problemas de saúde quando a vontade de “sempre não fazer nada” aparece para tudo: dos compromissos profissionais aos sociais.

A depressão pode estar associada ao sentimento frequente. Alguns especialistas norte-americanos investigaram a sensação de cansaço e encontraram até um gene responsável por isso, que afeta a atividade cerebral. Existe ainda na área da medicina a narcolepsia, doença de difícil diagnóstico, que acomete um em cada dois mil indivíduos, e tem como principal sintoma a sonolência excessiva durante o dia. São casos mais extremos e precisam de avaliação médica para serem considerados.

O fato é que a preguiça, quando não é um problema de saúde tão específico, é alimentada pelo sono inadequado, má alimentação e obesidade. O remédio para tal pecado pode ser justamente aquilo que os preguiçosos tentam driblar. Os exercícios físicos liberam no corpo os hormônios endorfina e serotonina, que estimulam a disposição. Ao persistirem os sintomas, procure um especialista. É mais eficiente do que se autoclassificar como um preguiçoso pecador.

Inveja e depressão

A inveja talvez seja o pecado capital mais condenado já que é difícil alguém assumí-lo. Mas é justamente o ato de camuflar este sentimento, de forma sistemática e exaustiva, que pode resultar em depressão, avalia o psicólogo clínico formado pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro, Marcelo Quirino.

“A associação entre inveja e depressão ficou ainda mais forte na sociedade contemporânea”, diz ele. “Isso porque, ter inveja é admirar algo ou uma característica do outro que você tem certeza de que é incapaz de ter. Atualmente, ter coisas é mais importante do que ser. A publicidade não vende mais carros e sim identidade. Tudo isso desperta a sensação de impotência, condutora da depressão”, relaciona o especialista.

O olhar destrutivo da inveja está no rosto de qualquer um, mas como “não é uma característica socialmente aceita”, diz Quirino, “há um esforço diário para recalcá-la em vez de trabalhar esta sensação”, completa. O ciclo fica ainda mais difícil de ser rompido já que a depressão pode aparecer primeiro e só depois vir a inveja.

Reconhecer as dificuldades é o primeiro passo. O seguinte é a vivência da situação. Terapia precisa acompanhar o processo. As consultas, inclusive, já se mostram mais eficazes do que os medicamentos antidepressivos.

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